terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Conversa com o Pai

O Filho Mais Velho por Pedro dos Anjos


Pai? Sou eu, seu filho mais velho.
Preciso conversar com o senhor.
Tem muitas coisas que eu não entendo.

Pai, eu sei como tu sofreste.
Fui eu quem ficou aqui,
trabalhando.
Pai, eu também chorei quando ele partiu,
e tentei, meio sem jeito, te confortar.
Pai, eu senti a tua dor
quando via teu olhar distante no horizonte
pensando em quão longe de ti ele estava.

Pai, eu fiz a minha parte.
De cabeça erguida, enfrentei a realidade.
Trabalhei como se deve, dia e noite.
Parmaneci ao teu lado, fui obediente.
Não fui eu quem te desonrou.
Não fui eu quem partiu.
Não fui eu quem te causou dor.
Não fui eu quem agiu como um filho sem pai.

Mas... Pai, eu não entendo.
Ele retorna e tu ages como se ele fosse um príncipe.
Ele é filho, eu compreendo, é o “amor de Pai”.
Mas eu sou filho também.
Por que a festa? E a repreensão?
Por que as honras, depois de tudo que ele te fez?
Ele não merece. Talvez eu mereça, ele não.
O que acontece aqui então?

Pai, hoje eu vejo que eu estava errado.
Eu não sofri como tu sofreste.
Eu não chorei como tu choraste.
Eu não senti a tua dor.
Deixei que a minha dor se tornasse em amargura.
E no momento em que a dor se torna alegria,
no grande reencontro,
minha amargura se torna em ressentimento.

Pai, agora eu vejo que eu também errei.
Agi e trabalhei muito, mas não como um filho,
como um empregado.
Estive ao teu lado, mas não aos teus pés.
Quis merecer a tua herança,
deveria ter buscado a tua sabedoria.
Estive sempre perto, mas tão distante.

Pai, quero perdoar meu irmão.
Parte desse querer, eu confesso,
é mais por obrigação.
Mas, no fundo, me restou algum amor.
Pai, quero voltar a sentir a tua alegria.
Sei que deveria ser grato, afinal
ele teve que ir longe para aprender a lição
enquanto eu aprendia aqui, em casa.
Ainda que os dois tenham sofrido,
são cicatrizes diferentes.

Pai, eu quero me perdoar
por agir como um filho sem pai.
E, de uma coisa tenho certeza:
Tu já me perdoaste.
Eu vejo os braços abertos,
esperando o meu abraço.




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